31 de jul. de 2009

"Dor pungente" (by Ava)


Beira do rio São francisco

Saudade, palavra doce, terna , que encerra em suas oito letras, um turbilhão de sentimentos...


Saudades da infância... de brincar de amarelinha...das bolas de gude... do futebol com bola de meia... saudades das estórias de príncipes e princesas... de fadas e duendes...Saudades de esperar o Papai Noel, com os olhinhos fechando de sono... e acordar com o presente aos pés da árvore ou ao lado da cama...Saudades da primeira professora... de brincar de " eu sou pobre, pobre, pobre de marre´descí...", na hora do recreio...

Saudades da adolescência... do primeiro baile ( sou do tempo do primeiro baile...rs) das primeiras descobertas... "do amor anotado em bilhetes"...da agenda cheia de recados e papel de balas... do primeiro beijo... do primeiro diário... onde derramávamos nossas agonias... Saudades do colégio, onde enlouquecer o professor era "café pequeno"... Do cineminha... dos beijos roubados e consentidos... das festinhas, com horário marcado para chegar em casa... Saudades de matar aula e ir para a pracinha... de passar as tardes na casa da melhor amiga, comendo pipoca e tomando suco de laranja ...

Saudades da juventude... Agora sim, a fase adulta... das festas... dos passeios... do primeiro acampamento... da primeira transa, cheia de culpas e medos...do primeiro porre ( e a já quebrada jura, de nunca mais beber...rs), da primeira serenata , da primeira viagem com o namorado... saudades de quando a vida nos sorria, e corríamos atrás dela, alucinados... Saudades dos tempos de ginásio... dos movimentos estudantis... das passeatas.. dos protestos... dos gritos de guerra... das músicas, sempre tão censuradas... de Caetano, Chico, Gil, Vandré, Elis e tantos outros...Saudade de quando acreditava-mos que o Brasil podia ser melhor... e lutar por um ideal, era ir até as últimas consequências...

Saudades ....

Saudade não acaba aqui... A cada dia é depositada mais um bocadinho em nossos corações...Quem sabe, daqui há alguns anos, eu não escreva sobre a saudade desse mundo dos blogs... Sobre os amigos blogueiros, que guardo do lado esquerdo do peito... Sobre esse mundo virtual, que se torna tão real, quando falamos de sentimentos...

Saudades do real, quando tudo se torna tão virtual...

"A saudade mata a gente" (A. Almeida/Braguinha)

Fiz meu rancho na beira do rio
Meu amor foi comigo morar
E nas redes nas noites de frio
Meu bem me abraçava pra me agasalhar
Mas agora, meu Deus, vou-me embora
Vou-me embora e não sei se voi voltar
A saudade nas noites de frio
Em meu peito vazio virá se aninhar

A saudade é dor pungente, morena
A saudade mata a gente, morena
A saudade é dor pungente, morena
A saudade mata a gente


.

30 de jul. de 2009

Amor e liberdade (by Udi)

(...ou: na prática, a teoria é bem difícil!)
Extraído do texto de Rubem Alves, "Sobre deuses, pássaros e gaiolas"
"Um pássaro voando é um pássaro livre. Não serve para nada. Impossível manipulá-lo, usá-lo, controlá-lo. Pássaro inútil. E esse é, precisamente, o seu segredo: a sua inutilidade: ele está além das maquinações dos homens. Sua única dádiva é o seu canto. Só faz um milagre, um único milagre: quando, chorando, lhe peço "Passa de mim esse cálice", ele canta e o seu canto transforma a minha tristeza em beleza. Por isso eu nada lhe peço. Sei que ele não atende a pedidos. O seu canto me basta: ao ouvi-lo transformo-me em pássaro. E vôo com ele... "

AINDA SOBRE A SAUDADE (by RM)

........................"A Mantiqueira", de Debret, décadas iniciais do século XIX.



.

28 de jul. de 2009

nossos pés (by Tetê)


Seus pés...



Meus pés...
Nossos adoráveis pés!

Há pés descuidados!




E há pés cuidadores...

Há, os capazes de andar, correr, saltar e os que estão bem lá no fundo de tudo, esquecidos no sapato que o esconde!




Puxo a cadeira e me sento, observo seu corpo, atenta.
Olho teus olhos, há um
certo brilho em seu olhar e embora ainda não saiba o que ele representa, gosto.


Caminhar em bicos de pés é um andar preparado para o efeito; lento, atrevido e com uma boa noção dos centímetros a percorrer, com língua de palmo e boca de “sapato”, mas só para alguns, restando bicos de boca para outros! Há uma música, ninguém ouve? Ninguém sente? Ninguém dorme!




Ele livra-se de seus sapatos e meias e de todo o resto.
Aproxima-se e
ajoelha-se aos meus pés, beija minhas pernas, desce em beijos e tira minhas
sandálias.


Bocas são os sapatos da língua; exibem nas mais diversas cores e formas dos lábios e para todos os gostos, pois há quem goste de “fruta” e os que gostam apenas da fruta do morango, maçã ou melão, em forma de banana.... com sabor a fruta! Ele prova seu gosto, ela gosta do sabor...




Suspendo minhas pernas e alcanço seu peito.
Busco com meus pés os bicos
de seus seios.
Acaricio, belisco e os mantenho entre os dedos.

Há bocas com lábios de salto alto, raso e, tal como as mãos que a quiromancia interpreta, as linhas e outros detalhes permitem o prazer da descoberta adequada aos mais diversos gostos; há mãos, tal como os sapatos que protegem e embelezam os pés, compridas e fundas sem segredos ou tabus, curtas e fundas pelos milagres da rapidinha, curtas e fracas com sabor a pouco mais de nada, curvadas e redondas para os que gostam de bizarrice, bifurcadas que requerem acompanhamento duplo, as que terminam no monte da lua depois de passar pelo monte de vénus e, finalmente, as unidas à linha da cabeça no início só para contorcionistas!




Ele resiste, mas cede. Eu brinco.
Ele gosta. E ri, como quem aceita.


Talvez, por isso, as mãos, devido ao uso que nunca é excessivo, não tenham tanta sensibilidade quanto os pés! De gosto, as mãos curtas e fundas, sabor nêspera.




Alcanço sua face... barba por fazer e me arranha,
quase...


É na planta do pé que tudo começa. Uma cheiradinha, duas e é sabido que a planta do pé se prolonga por todo o jardim até a flor sempre sedenta e pronta para ser regada. Acordam-se sobre sentidos extras, tocam-se com os pés, mãos silenciam...




Ele me cheira, bem na sola dos pés, faz cócegas, me delicio...
Beija
meus pés.
Aos meus pés...

Há, também, pés mais alongados, mais perto do céu... da boca, geralmente despidos de sapatos, enquanto no vaivém nesse céu.




E me suga o dedo.
E enquanto me sirvo de alimento,
toco-o.

Há bocas de sapatos que engasgam, mas não chegam a cuspir o pé que sai por vontade própria, talvez para dar descanso aos cinco dedos de cada um, e aproveite para uma massagem no pênis enquanto masturbam os pés... O prazer que vem do toque, a pele arrepia, o coração descompassa, precisam de ar, escorrem juntos.




Quero seus dedos entre meus dedos,
te procuro, te acho, te sinto e te
prendo.
Ajoelhado, aos meus pés!


Há mesmo quem afirme ser o maior “trepador” e consiga orgasmos múltiplos, dois ou mais por cada dedo... Ela sempre fora péssima em matemática, pede um tempo, precisa fazer essas contas! Um pelo pênis e meio orgasmo pela ideia que ficou pela metade e murchou.




Nossos olhos se vêem.
Se reconhecem e dialogam a linguagem do desejo.
Sem
pressa.


É na planta dos pés dos bípedes que assenta todo o peso do próprio corpo e de outros corpos de ocasião, sabendo que nos homossexuais o peso é maior, o que é provado e até degustado, como sendo seu grosso e penetrante calcanhar de Aquiles; adoram Aquiles... e o calcanhar! É chegado o momento.







Não nos contentamos mais,
Necessitamos de mais, do abraço nos
braços...
Ele se apronta para me receber.
Eu recuso. Ele exige. Eu cedo.
Nos entregamos, rendidos ao poder da inevitável tentação da carne e... a
penetração dos incontroláveis sentidos acontece!
Queimamos... ardendo no
vulcão de pecado e nos preparamos para a explosão que virá!
E vem...










SAUDADE (by RM)

"Saudade é uma das palavras mais presentes na poesia de amor da língua portuguesa e também na música popular, 'saudade', só conhecida em galego-português, descreve a mistura dos sentimentos de perda, distância e amor. A palavra vem do latim 'solitas, solitatis' (solidão), na forma arcaica de 'soedade, soidade e suidade' e sob influência de 'saúde" e "saudar'. Diz a lenda que foi cunhada na época dos Descobrimentos e no Brasil-colônia esteve muito presente para definir a solidão dos portugueses numa terra estranha, longe de entes queridos. Define, pois, a melancolia causada pela lembrança; a mágoa que se sente pela ausência ou desaparecimento de pessoas, coisas, estados ou ações. Uma visão mais especifista aponta que o termo saudade advém de solitude e saudar, onde [sic] quem sofre é o que fica à esperar o retorno de quem partiu, e não o indivíduo que se foi, o qual nutriria nostalgia. A gênese do vocábulo está directamente ligada à tradição marítima lusitana" (extraído daqui).

Ou então na versão de Dorival Caymmi, numa inspirada interpretação de Almir Sater:


24 de jul. de 2009

INVENÇÃO (by RM)



Nem eu (Dorival Caymmi)

Não fazes favor nenhum
Em gostar de alguém
Nem eu, nem eu, nem eu
Quem inventou o amor
Não fui eu
Não fui eu, não fui eu
Não fui eu nem ninguém
O amor acontece na vida
Estavas desprevenida
E por acaso eu também
E como o acaso é importante querida
De nossas vidas a vida
Fez um brinquedo também



.

23 de jul. de 2009

Calàf (by Tetê)


Nessum Dorma é uma ária do último ato da Ópera Turandot, de Giacomo Puccini.

os acordes são roucos, seu tom de voz ressoa quase desfalecido, mastigo as sílabas, engulo a seco e aceito o convite à dança.
ao som ensurdecedor, não me ocorre outra coisa senão fechar os olhos e sonhar. nessas horas queria saber escrever de olhos vendados.



A ária refere-se à proclamação da princesa Turandot,
que determina que ninguém deve dormir:

[...]
Que
ninguém durma!
Que ninguém durma!
Você também, ó Princesa
Em seu
quarto frio, olhe as estrelas
Tremendo de amor e de esperança...

suas mãos me chegam e me tocam no silêncio absoluto posso assisti-lo imóvel, a dançar comigo, de olhos fechados.
é feita a magia.


todos passarão a noite tentando descobrir o nome
do príncipe desconhecido, Calàf, que aceitou o desafio.


[...]
O meu nome ninguém saberá
Não, não, sobre tua
boca o direi
Quando a luz brilhar...

minha pele arrepia e sinto na alma o desejo de tocá-lo, tal qual sente a mãe ao ter seu filho parido, tal qual sente a mulher que deseja seu homem. sua respiração é curta, seu coração frio e suas mãos repousam sobre a testa.

Calàf canta, certo de que o esforço deles será em
vão.


[...]
Parta, oh noite
Esvaneçam,
estrelas
Ao amanhecer eu vencerei!
Vencerei!
Vencerei!

e vencida pela exaustão, faço do gozo meu prazer em rítmicos e múltiplos orgasmos.

cala-se Calàf



22 de jul. de 2009

DISSE? (by RM)

All of me
Why not take all of me?
Can't you see?
I'm no good without you
Take my lips
I wanna lose them
Take my arms
I'll never use them
Your goodbye
Left me with eyes that cry
How can I get along without you?
You took the part that once was my heart
So why not, why not take all of me?


All of me é um standart da música americana e do jazz, escrita na década de 1930, por Seymour Simons e Gerald Marks. Aqui em versão de Haroldo Barbosa, nas vozes de João Gilberto, Caetano Veloso e Gilberto Gil.


.

19 de jul. de 2009

Das contradições...! (by Ava)


Ela já tinha decidido...
Já sabia que aquele caso era "caso perdido"...
Já fizera de tudo,

Se declarado
Se mostrado

Se oferecido
Se jogado nas braços dele...
Fez poesias,
Se embaralhou nas rimas
Cantou músicas,
Desafinou nas notas...
Do encanto fez um conto,
Se perdeu nas palavras...

Da pintura, fez-se um borrão
E nada!


Mas ela tinha decidido...
Ia encontrar um meio de esquecê-lo
Esquecer aquele sorriso, que só vira uma vez
Esquecer aquele rosto, que só vira uma vez
Esquecer aquele cabelo que só vira uma vez
Esquecer aquele homem que só vira uma vez
Esquecer o que só vira uma vez,
Numa imagem de computador!

Mas ela não sabia decidir...
De novo ele aparece
De novo ele a envolve
De novo ele a encanta
De novo ela se encanta
De novo ela sabe que está perdidamente apaixonada!

E ruborizada decide
que não vai mais decidir...
Ela quer esse homem!





APRESENTAÇÃO DA AUTORA (por ela mesma)
"Não sou poeta, nem escritora, nem jornalista, nem professora. Sou apenas uma mulher que sente, que ama, que sofre, que se perde e se acha... Mas que vibra, e que sente a vida, como se pudesse bebê-la a grandes tragos.
O nome é Ava mesmo, já que abandonei o 'Avassaladora'. Profissão: administradora de empresas. Divorciada e blogueira por teimosia..."

Mais informações podem ser obtidas aqui.
.

17 de jul. de 2009

meus rés sustenidos (by Tetê)




abre o velho piano esquecido no canto da sala
senta-se acomoda-se respira fundo

pensa na música
Naquela Mesa de Sérgio Bittencourt
embora da letra se lembrasse muito pouco
gostava dos acordes
da correria pelo teclado em dós sustenidos
e gemidos
de fás e lás maiores
de menores os sis de ausência

talvez por isso se complicasse bastante com as teclas
do computador, do microondas e da máquina de fazer pães

dedos longos unhas curtas esmalte claro
uma profissão se emendava à outra...

o primeiro piano a primeira audição
a paixão pelas telas pelas tintas pelas cores
depois as palavras...

e as mãos estavam lá escolhendo acordes
testanto cores escrevendo palavras soltas

mas irremediavelmente sós

na madrugada
lembrou-se dos últimos meses

lembrou-se dele
ela não queria um caso queria a história de amor

na madrugada desfez-se em nós

lançou-se ao abismo de
sis sustenidos de
rés maiores
de mis menores

fechou o piano
jogou fora recordações...

o dia amanhecera

sol maior

sobrevivera


14 de jul. de 2009

MILAGRE DOS PEIXES (by RM)

Dedicado a uma simpática leitora d'além mar.




Gente que vem de Lisboa / Peixinhos do mar (Folclore adaptado por Tavinho Moura e Fernando Brant)

Gente que vem de Lisboa
Gente que vem pelo mar
Laço de fita amarela
Na ponta da vela, no meio do mar
Ei nós, que viemos
De outras terras, de outro mar
Temos pólvora, chumbo e bala
Nós queremos é guerrear
Quem me ensinou a nadar
Quem me ensinou a nadar
Foi, foi, marinheiro
Foi os peixinhos do mar
Ei nós que viemos
De outras terras, de outro mar
Temos pólvora, chumbo e bala
Nós queremos é guerrear


.

E MAIS UMA DEFINIÇÃO (by RM)...


Acima. a conhecida obra renascentista de Ticiano.
.

Abaixo, interpretação magnífica de Milton Nascimento (Túlio Mourão ao piano) da canção Amor de Índio (Beto Guedes/Ronaldo Bastos).

Milton Nascimento - Amor de í�ndio

.

10 de jul. de 2009

ses de mim... (by Tetê)



e todas às vezes que o amor se fez...

e se fez por uma frase, ou uma carta,
ou pelo toque e pelo cheiro
da pele que molha e umedece,
escorre...

e que o prazer chegou...
e se você me deixou ser um pouco sua...

e se senti a dor de ser
e a dor de ter...

e se agora
sentindo no corpo sua ausência
e na alma a certeza de que
passou...

e se você errou
e se eu errei...

se o amor não se fez
se a dor prevaleceu...

e se tudo no agora
é só saudade...

e se não corto os pulsos
e se quero esse cheiro
não seu, mas meu...

e se no sonho ainda
busco você
e se você não chega...

e se brigo, se xingo,
se grito
eu ainda escorro...

de desejo ou de dor

e se você não lê
e se você não vê

e se você não vem
e se eu não vou...

e se eu ligo
e você não atende

se eu digo vem
e se você não vem...

e se você ignora

e se odeio
a cor de hipóteses

e se o encontro não se faz...
eu renasço em mim a esperança de um novo dia
.
.
NOTA DO ADMINISTRADOR DO BLOG
Uma especialíssima leitora desse blog, que atende pela graça de Ava, pediu-me que sugerisse uma música para a postagem da Tê. Vou tomar a liberdade de fazê-lo aqui junto ao texto, sujeito, naturalmente, à concordância da autora...
A música chama-se E se; composição de Francis Hime com letra de Chico Buarque.

Francis Hime - E Se


8 de jul. de 2009

THREE (by RM)


Cena do filme "Three Times", de Hou Hsiao-hsien


E os Commodores, do tempo em que os negões americanos cantavam soul...


.

7 de jul. de 2009

DIRETO DOS ANOS... (by RM)

Ah, melhor deixar pra lá... (mas que a Wandeca ainda está com uns pernões, ah isto está)


.

4 de jul. de 2009

SATURDAY NIGHT (by RM)

O dia da criação (Vinícius de Moraes)

Macho e fêmea os criou.
Gênese, 1, 27
Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar

Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar.


Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.


Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.



Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Hoje há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado
Há um rico que se mata
Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado
Há um grande espírito-de-porco
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado
Há criançinhas que não comem
Porque hoje é sábado
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado
Há uma comemoração fantástica
Porque hoje é sábado
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado


Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens,
ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como
as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas
em queda invisível na
terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda
e missa de
sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das
águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em [cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e [sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.




3 de jul. de 2009

OUTRA DEFINIÇÃO (by RM)

A QUEM INTERESSAR POSSA...


Detalhe de "Amor sagrado, amor profano", de Ticiano

[Sem título]

Amor é um carpinteiro

Que ri com ar de matreiro,

Cerrando forte e ligeiro

Na tenda do coração...

Com toda a proficiência

Põe pregos de resistência,

Ferrolhos na consciência,

Tranca as portas da razão.


Adelaide de Castro Alves Guimarães (Salvador, 22/03/1854 - Rio de Janeiro, 21/09/1940), assinava com o pseudônimo de Sílvia. Era irmã do grande poeta Castro Alves e reunia, em sua casa em Salvador, grande parte da inteligensia baiana e brasileira do século XIX.