6 de dez de 2010

Em lembrança de Francenildo (by Maristela)



A jornalista Helena Chagas, filha do também jornalista Carlos Chagas, que foi assessor de imprensa do segundo presidente do regime militar marechal Costa e Silva, deve substituir, na chefia do Ministério da Comunicação Social, Franklin Martins – sim o cara que se mostra excitadíssimo aqui neste no vídeo ao falar sobre a execução do embaixador que ele e cumpanhêros haviam seqüestrado e torturado. Helena, como se sabe, se formou e teve seus momentos de sucesso principalmente nas organizações Globo, andou pelo SBT e pela TV Brasil e, por último, foi chefe dos jornalistas que se encarregaram da parte de comunicação social da campanha presidencial da ex-integrante dos grupos guerrilheiros Colina e Var-Palmares Dilma Rousseff. A coordenadora, orgulho declarado de papai Chagas, ganha, agora, de sua assessorada, seu merecido prêmio: um ministério.
Helena Chagas, é bom lembrar, era vizinha do caseiro Francenildo Costa, o moço cuja vida foi detonada (e nunca mais reerguida) por ter ousado revelar as frequentes visitas do então mais poderoso homem do governo Lula, Antonio Palocci, à casa em que o que mais havia era camas e rodízio de moças muito laboriosas. Endereço que tinha como “dinda” dos “eventos” locais uma senhora de respeito chamada Mary Jeany Corner.
A nobre colega, hoje quase ministra, recordemos também, movida pela mais profunda noção de ética jornalística, entregou a Palocci a informação de que havia dinheiro a mais na conta do miserável caseiro que passou de probo a suspeito. E o fez baseada no comentário do marido que ouviu o diz-que-diz de um jardineiro, percebem a atitude?
Hoje, ela diz que quer esquecer este caso, que não é de “olhar para trás”. Compreensível. Já quem quiser refrescar a memória sobre como a dica “inocente” de Helena serviu ao PT, a Lula e a Palocci (e ver como o provável sucessor de Lula “ganhou” a quebra de sigilo bancário de Francenildo num final de semana à noite), esta é uma boa matéria, publicada na Piauí de outubro de 2009. Nunca antes neste país, de verdade!
O bonito de tudo isso, em época natalina, é o reencontro de Helena Chagas e seu, como direi, protegé Palocci. Como é a vida, não? Até pouco, ela estava acompanhando Dilma numa linda viagem a Tucuruí. Em seu endereço no twitter, a substituta de Franklin (a propósito, irá ele para a Record, fazer companhia a Paulo Henrique Amorim em sua guerra santa contra a Globo?) fala, encantada, de imagens que fazem sonhar, como imenso paredão, comportas que se abrem, água que respinga e outros quetais: “Atravessamos e saimos do outro lado”, diz seu tuíte de 30 de novembro, o último postado. Informações importantésimas, como se vê.
Então, está feita a travessia. De repente, Helena dará uma colher de chá a Luiz Lanzetta, a quem o site Amigos de Pelotas chamou de (não riam!) “Duda Mendonça da campanha de Dilma”. Numa inversão total de papéis, Lanzetta foi quem pediu “afastamento” a sua contratada por causa daquela “bobagem” toda dos dossiês contra José Serra e o PSDB,
Quem sabe, agora, a novel ministra compense a maldade que fez com Francenildo e lhe arranje ao menos um cargo legal, não é mesmo? Afinal, Lula está chamando de volta os brasileiros que foram tentar ganhar a vida mais dignamente fora do Brasil. Tudo é possível. Tem emprego sobrando, altos salários, é o paraíso.
Triste, né colega, mas desfazer o mal- feito contra Francenildo não da mais. E, aposto na dignidade dele, que não aceitaria nada deste governo.
Desejemos, assim, um lindo natal a Helena Chagas. E que ela possa atuar no ministério pensando no Jornalismo e na Comunicação Social e sobretudo nos jornalistas com ou sem partido político e, quiçá, agir diferentemente de seu já quase antecessor, com respeito e um mínimo de justiça em relação a seus colegas.


NOTA DO ADMINISTRADOR
Maristela Bairros é jornalista pela UFRS. Atuou como redatora, repórter, editora, crítica de teatro, produtora e apresentadora nos principais diários e rádios de Porto Alegre. Foi também assessora de imprensa da Secretaria de Estado da Cultura e da Fundação Cultural Piratini. É autora de três livros, destacando-se Chutando o Balde, editado pela Artes & Ofícios.
Mas antes de chutar o balde Maristela honra o ofício, respeitando os fatos e tratando bem a língua mater. Só não se metam com ela: pimentinha ardida não foge de briga... Seus textos também podem ser encontrados aqui e aqui.
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4 comentários:

rm disse...

Bem vinda, Maristela!

O texto é ótimo e, em certo sentido exclusivo, já que quase ninguém na chamada "grande imprensa" tem coragem de desafiar a turma do cofre da publicidade governamental.

As regras aqui são simples: você tem toda a autonomia para postar o que quiser, na hora que quiser e do jeito que quiser. Eu banco! E se eventualmente não concordar eu opino, como mero comentarista...

Querida, peço licença para acrescentar alguns dados sobre sua brilhante carreira de jornalista, a fim de apresentá-la aos simpáticos leitores desse bloguinho...

maristela disse...

Roney, tô me sentindo em casa. Azar o seu por ter sido um cara amigo, leal e solidário que conheci no twitter.

rm disse...

No meu dicionário isto se chama honra, não azar...

E acho que todos os que freqüentam esse bloguinho, originário do http://verbofeminino.blogspot.com/, também ganham com sua opinião corajosa e, algo raríssimo hoje em dia, uma jornalista que sabe escrever...

Sylvio de Alencar. disse...

Não sou frequentador assíduo; sem duvida Maristela é uma presença de peso que se faria notar em qualquer lugar.
Li o texto de cabo a rabo; é leve e informativo; bom de se ler.

Abrçs a todos.