11 de mar de 2011

Fora do eixo – eu e a Terra (by Maristela)



Bem que minhas costas me avisaram: o eixo da Terra está, depois dos tremores mais recentes, mais dez centímetros fora do eixo!  Sei que são milhões de quilômetros na linha do Equador, mas não dá pra desprezar um desalinhamento. No meu corpo, sobretudo, é algo tão grave quanto o terremoto e a tsunami juntos! Uma dor que não dá tréguas, uma agulha fininha que foge do efeito de qualquer analgésico, um deboche da natureza diante de nossa vaidade de ser o ser mais inteligente sobre o planeta e quiça no universo inteiro!
Escrevo enquanto escuto um especialista em qualquer coisa relativa a chão e convulsões da natureza, um professor na verdade, discorrer monotonamente sobre o tremor no Japão. Esta coisa monocórdia que brota da TV, incluindo o tom dormideiro da colega que se espanta, fica perplexa com o fato de o mundo “ser uma casquinha”, enfim, as maravilhas do jornalismo ao vivo, tudo me deixa com mais e mais dor na minha coluna fora do eixo. E me dou conta que a Líbia já era como primeiro assunto – Kadafi deve ter um pai de santo muito forte, dirão alguns, pra conseguir um terremoto com tsunami que jogou pra baixo, em todos os portais, suas barbaridades.
Nada mais descartável que um fato! Assassinatos, acidentes, chuva demais, queda de pontes, o ator drogadicto e alcoolista que perde o trabalho mas não a grana, os vagabundos dos reality shows, a mais nova corrupta de Brasília, o sindicalista que brigou com quem vivia em osmose, mais um jornalista que vai para uma guerra como se fosse ao baile de debutantes da irmã e vira noticia porque foi agredido, preso etc. Tudo notícia velha em segundos.
E os vídeos rodam em todos os canais, em todos os sites, em todos os blogs, mesmas imagens de ângulos diferentes, com legenda e sem legenda, com comentários de quem fez, de quem vê, de quem analisa! Todo mundo fala sobre tudo, o twitter trepida, o facebook repercute, o mail já entope com as fatídicas piadas, alguém manda um hoax de cinco anos atrás mobilizando todos para uma ação em favor de sei lá quem, e a coluna incomoda!
Tudo igual e diferente ao mesmo tempo. Nem controle remoto dá jeito porque não troca o essencial que é este enfaro, esta overdose de informação repetida que se quer inédita e que nunca mais vai ser porque mal nasceu já morreu.Aí, baixa o santo da filosofice e a gente fica escrevendo sem entender direito o que acontece em volta. Lembro, então, da época em que fazia a lição de casa (nos anos 60 nem existia o termo “tema”), passando cadernos caprichosamente encapados a limpo, caneta tinteiro traiçoeira que poderia, a qualquer momento, largar um pingo de tinta e terminar com toda a dedicação usada para impressionar a professora.
No rádio de baquelite marron, com alto falante coberto por uma telinha de tecido que ainda conservava uns fios meio dourados em meio aos marrons, a gente ouvia Angela Maria, Cauby Peixoto, o repórter Esso, A Alma das Coisas, Pinguinho e Walter Broda, Brizola na Cadeia da Legalidade, A Hora do Brasil, as estrelas das novelas – Paulo Ricardo, Leonor de Souza, Jalma D Arroxelas! Jalma, minha querida primeira anja da guarda na Rádio Gaúcha, me chamando de figura de Modigliani.
Mas isso foi depois. Antes, era só um rádio em cima do balcão na cozinha de um apartamento de operário na vila do IAPI, noites calmas, uma pequena mesa com toalha de oleado, coberta de cadernos, lápis, caneta, borracha, a velha pasta de couro descascado. Música, notícia, dramas, comédias, a vida ritmada pelas vozes sem rosto que se amava ou odiava. O barulho do bonde chegando no fim da linha, na avenida logo abaixo. E o brilho das válvulas do velho rádio, que meu pai desligava após apagar a luz da cozinha. Hora de dormir. Logo o despertador chamaria, antes do sol aparecer, meu pai pegaria sua marmita, a bicicleta encostada atrás da porta da sala e, com um assobio estranho, desceria a rua. Em breve, o botão girado com um estralo, os guinchos e roncos habituais do dial destrambelhado, uma conversa, um trecho de canção e, de novo, as vidas de dentro e de fora se misturando. 

5 comentários:

Cora disse...

♫ Alguma coisa está fora da ordem...♪ (Caetano)

♫ O mundo - caquinho de vidro -
tá cego do olho, tá surdo do ouvido♪ (André Abujanra)

* Encasquetei:

Será que a Terra fora do eixo é a origem dessa sensação de impotência?

...ou é o modo como interagimos com o planeta que afeta a sua rotação e a nossa percepção de tempo e espaço?

* O texto sem assinatura está muito bom. Parabéns! (presumo que seja da Maristela, a jornalista) :)

rm disse...

Estimo melhoras; já que a Terra parece inexoravelmente fora do eixo...

Já falei muitas vezes; repito: gosto muito do seu texto. Espero que futuros jornalistas aprendam um pouquinho aqui...

Cora,
o texto não é anônimo; está lá: postado por Maristela às tantas horas.

Cora disse...

rm,

eu sabia! rs

...mas é que o texto tá com cara de editorial...

Carlos Leite disse...

O seu blog é fantástico! Ainda não consegui formar uma opinião completa sobre si... Ainda não li tudo, mas do que li, está óptimo!!! Muitos parabéns e, obrigado por partilhar connosco a sua arte!
Se me permitir gostaria imenso de seguir o seu blog.
Atenciosamente,
Carlos Leite, http://opintordesonhos.blogspot.com

Francisco Coimbra disse...

Sem me afastar de desejar melhoras e deixar Parabéns! Bjs