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17 de set. de 2009

A costura de Lucíola (by Beth)

Sentindo nas palmas das mãos um formigueiro em regurgitante erupção, Lucíola foi impulsiva e áspera ao largar a vassoura no peitoril da janela da sala de estar. Alcançou com a vista embaçada o sofá empoeirado, mas se sentou no móvel que estava mais ao alcance das pernas trêmulas. Arriou as cadeiras no acento, recostou o dorso no espaldar da poltrona, puxou a penúltima nesga de ar e rogou aos céus que lhe inspirasse. Sentiu na boca o gosto azedo de uma golfada e, sem amargura nos gestos, retomou a costura abandonada há dias. De quando em vez, o sono lhe arrebatava a agulha da mão e começava a bordar nos pesadelos os retalhos do dia. Não sei dizer quanto tempo depois, mas sei que Lucíola combinou as idéias e decidiu que já estava mais do que na hora de abandonar a costura para dar uma olhadinha no movimento da rua. Precisava sacudir a preguiça das juntas esmoidas. Sem demora, deu as mãos aos braços da velha poltrona colocou o peso do tronco nos joelhos, largou as nádegas do acento em brasa e foi ficar ao lado da vassoura. Entre Lucíola e a vassoura não havia muita diferença. Esguias sacodem a poeira dando voltas por cima e por baixo. Magrelas se postam no peitoril da janela da sala de estar. Lucíola, numa fisgada, percebeu a praça regurgitando gente. Todo o campo de visão estava minado de refluxo humano. Para Lucíola, era como se a boca do mundo estivesse com disfagia.
Lucíola desviou o olhar para um pedacinho da grama, uma área de 20cm x 10cm, embaixo do jambeiro. Centenas de formigas carregavam para dentro de suas cavernas o rosa orgânico da flor do jambo. No pensamento fértil de Lucíola, as formigas penetram nas cavidades da terra para depositar materiais que, por sua vez, irão regurgitar na mesa da cadeia alimentar outras minúsculas criaturinhas. De repente, não mais que de repente, a vassoura dá uma cutucada em Lucíola e aponta, com o cabo, para uma menina de vestido vermelho que passava bem embaixo do peitoril e, curiosa até último fio de sisal, perguntou: O que você tem aí dentro desta caixa, menina? Torta de vento com nada dentro! - respondeu a garotinha. Lucíola, sem querer perder mais tempo, voltou para a sua costura. Dessa vez, furou o dedo e tingiu com sangue a pétala da rosa que bordava há dias.


NOTA DO ADMINISTRADOR
Maria Elisabeth, Beth, baiana legítima ("...requebra direitinho, de cima e embaixo, revira os olhinhos e diz eu sou filha de São Salvador") é bióloga por formação, escritora (ao que tudo indica) por vocação e aventureira por distração. Também já tinha sido objeto de post nesse blog (vejam aqui) e mantém o BarcaVelanoMar , quando não está viajando pelos 4 cantos do planeta.

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